A falta de arquitetura e urbanismo dos postos de gasolina

Costumo caminhar muito, tanto que já fiz um texto sobre como caminhar é um ótimo meio para pensar, relaxar e observar a cidade; e um segundo texto sobre a árdua vida de um pedestre em Santa Maria. Uma das coisas que mais me incomoda caminhando e correndo nas ruas da cidade é como o ambiente urbano como um todo dá prioridade para o carro. Parece que onde o veículo acessa, o pedestre tem que se cuidar, pois a prioridade é sempre daquele. Um exemplo disso é a sinalização de que o carro está saindo da garagem, parece que é para interromper o fluxo de pedestre para que ele deixe o carro sair, é o pedestre que cuida do carro e quando o motorista do carro cuida, é uma gentileza.

Acho que um dos pontos onde essa prioridade é bem clara são os postos de combustíveis. Os postos possuem toda uma arquitetura focada no veículo, e tem até a comunicação visual em uma escala que prioriza os carros, e tudo bem que isso ocorra em rodovias, onde quase não tem pedestres e ciclistas, mas parece que a arquitetura de rodovia foi importada para os centros urbanos. Nos núcleos urbanos, os postos de combustíveis normalmente ficam em esquinas nobres, de alto movimento, com um longo rebaixo de meio fio, isso quando não é praticamente uma continuidade da rua ou avenida. Possuem lojas de conveniência quase que sem acesso de pedestres, somente cruzando o espaço dos carros, e praticamente nenhuma sinalização para que o carro tenha atenção com os pedestres.

Dentro do terriotório do posto, no seu lote, seria bom ter passeios demarcados, faixas, e uma diagramação visual para o pedestre. Mas também ali é livre para o proprietário tomar as decisões dele, e se quiser desenhar tudo só para trânsito de carro, pode fazer – sempre respeitando as normas e legislações específicas, é claro. O problema é que geralmente a implantação do posto foca no fluxo do veículo, e essa diretriz transpõe o limite privado do lote e toma conta da calçada, fazendo com que tudo seja o espaço do carro. Aqui uma observação pertinente: apesar do prorietário ser responsável, financeira e civilmente, pela calçada do seu lote, ela é parte do arruamento, ou seja, ela é pública. E aqui em Santa Maria possuímos regras e legislação específicas para o seu desenho, as quais deveriam ser seguidas em qualquer projeto, inclusive os de postos de gasolina. Você pode acessar o Caminhe Legal aqui ou ler o nosso post sobre ele.

Voltando ao passeio público, ou a ausência dele nos postos de gasolina… É impressionante como nenhum posto tem uma calçada decente, é tudo com rebaixo de meio fio para o carro acessar e sair como bem quiser. Às vezes me sinto, quando correndo ou caminhando, que estou em um deserto pronto para ser abatido, afinal, temos que ficar cuidando de todos os lados, por que muitos veículos nem olham o fluxo da calçada e sim somente o da rua, e saem acelerando alinhando com o fluxo de veículos da Avenida, como no caso do Posto Dutra, na Av. Medianeira.  

Além disso, como a ideia é ter escala visível ao fluxo de carros, vários postos colocam seus preços e letreiros em meio à passagem de pedestres, para ficar visível aos carros, o que obriga o pedestre a entrar no posto ou sair para a rua. Acho incrível como quem coloca aquela placa e fica o dia todo vendo os pedestres desviar não percebe o quão ruim ficou  Mas claro, o fluxo de carro não é atrapalhado! Não vou nem entrar no quesito árvores, que também são abolidas das longas testadas dos postos, como se a árvore fosse o inimigo dos carros, e não devesse entrar na “base inimiga”. 

Posto de gasolina já foi, em algum momento, tema para arquitetos, mas parece que ainda não conseguimos ganhar espaço nessa matéria. Parece que os arquitetos são chamados somente para um espaço interno, um deck e um café, mas nunca uma remodelação do espaço do posto em si. Acho que não está bem claro que somos arquitetos e urbanistas, e que conseguimos trabalhar com uma escala maior de espaços abertos, gerenciando fluxos e sinalizações.  

O arquiteto fica só na loja de conveniência, e a calçada também, ainda não somos reconhecidos como capazes depois da loja de conveniência

Fica também aqui a queixa com a administração municipal, que não quer fiscalizar, e os proprietários e administradores de postos de combustíveis, que não reconhecem isso como um problema, não veem o pedestre como cliente e não colaboram para uma caminhabilidade e uma cidade melhor.

Escrito por

Gaúcho, Santa Mariense, Arquiteto e Urbanista que um dia foi anarquista.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s