A árdua vida de pedestre em Santa Maria

Acredito que foi no livro “Cidades Caminhantes” que vi a citação de um ex-prefeito de Bogotá que diz: “Deus nos fez animais que caminham – pedestres. Como um peixe precisa nadar, um pássaro voar, um cervo correr, nós precisamos caminhar”. Eu concordo com ele, somos seres caminhantes e o hábito de caminhar muda meu humor, refresca minhas ideias e faz eu chegar cheio de gás para escrever, desenhar, criar ou trocar ideias.

falamos um pouco sobre caminhar nesse post aqui, mas se vocês pesquisarem um pouco vão descobrir livros, vídeos e inúmeras explicações e estudos que demonstram que caminhar, mesmo em esteira, faz bem não só como exercício cardiorrespiratório, mas como ato terapêutico também.

Porém, o Brasil todo desafia essa prática, priorizando e investindo em espaços para carros, e Santa Maria não é uma exceção. Aqui, a prática é um desafio diário, as calçadas são estreitas, sem continuidade, cheias de desníveis e, muitas vezes, nem existem.

Já falamos sobre o Caminhe Legal, e como, caso ele fosse implementado e cobrado, iria mudar a vida dos pedestres santa-marienses. Mas não dependemos somente dele, não é só a calçada decente que vai educar todos nós. Nós precisamos de um pacto social em favor dos pedestres. 

Primeiro, precisamos começar a enxergar todo o espaço público como pertencente a toda a sociedade, e entender que a maior parte dele é rua, reconhecendo que o carro tem muito mais espaço. A conexão entre as calçadas se dá através das ruas, e os carros precisam começar a entender que nem toda a rua é sua, que esse conflito entre pedestres e carro é inevitável. Não adianta dizer que  as faixas são preferência do pedestre, porque aqui em Santa Maria deve ter apenas umas três ou quatro faixas que os motoristas respeitam e param. Fora as inúmeras esquinas nas quais a faixa de pedestres nem existe.

Eu nem acho que as faixas precisam existir em todas as esquinas. Elas devem ser utilizadas para regular o trânsito em vias de alto fluxo, já em vias locais, precisamos é de estreitamentos de esquinas e medidas de traffic calming e, principalmente, de bom senso e contato olho a olho entre transeuntes e motoristas.

Outro ponto de conflito são os estacionamentos na calçada. É impressionante como o senso comum atribui à calçada a função de refúgio de carro. Donos de casa e lojas simplesmente param seus veículos sobre a calçada porque acham aceitável trancar a calçada, mas não a rua, jamais! Essa é uma clara demonstração de como o “carro” é mais importante que o pedestre na cidade. Falta educação dos motoristas em geral.

falamos da iluminação pública em outro post, mas vale lembrar que iluminação pública é fundamental para uma melhor vida do pedestre. Precisamos de iluminação de noite e sombra de dia. A arborização urbana também é precária, parece priorizar a fiação e o trânsito, e não a sombra aos pedestres.

O mundo todo se encaminha para uma mobilidade ativa, e se não fizermos um movimento que valorize essa mobilidade, vamos ficar presos em exorbitantes investimentos em obras viárias. Lembrando que nenhuma grande cidade do mundo resolveu a mobilidade aumentando pistas para os carros! Se apostarmos nesse tipo de solução nunca iremos resolver a mobilidade do nosso município.

Aos pedestres de Santa Maria, parabéns, porque é um desafio continuar caminhando na nossa cidade.

Escrito por

Gaúcho, Santa Mariense, Arquiteto e Urbanista que um dia foi anarquista.

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