Residência ou Lar.

Qual é o resultado de uma residência, depois do projeto acabar? Quase sempre é um portfólio de fotos, dos melhores ângulos, com as melhores montagens, até com mobiliário de loja, que depois não fica na casa do cliente. De certa forma é compreensível, arquitetos precisam de portfólio, e querem um que impressione e encante pretendentes à clientes. Mas no fim qual é o resultado final de um projeto de uma Residência?

Juhani Pallasmaa, no primeiro capítulo do livro“Habitar”, discute e questiona o conceito de “residência” e “lar”. Apesar do tom “kitsch” que lar pode ter, a definição de lar traz um significado de personalização, uma casa ainda é uma casa, mesmo vazia. Já um lar, implica pertencimento, como se “lar” fosse um conjunto de bagagens que os ocupantes do espaço tenham trazido na mudança, uma tinta que os moradores largam em toda a casa. Entretanto, arquitetos, na sua maioria, projetam residências e não lares.

Muitas vezes nos distanciamos desse sentimento, buscando um resultado estético e funcional, algo que valorize o portfólio, que impressione os colegas ou o meio/mercado da arquitetura. Uma relação meio autista, que por vezes desconsidera fatores ou desejos dos clientes. É claro que não cabe ao arquiteto reproduzir todos desejos do cliente, na minha opinião , o que devemos fazer é interpretar desejos e necessidades do cliente e mesclar com nossa experiência, levando em conta o estado da arte e as tecnologias disponíveis hoje. Devemos construir referências junto com os clientes, delineando caminhos e definindo projetos que agreguem tanto as expectativas dos clientes como os princípios do arquiteto.

O conceito de projetar um lar também não é só se preocupar com os desejos do cliente, é pensar em conhecer os usuários e a vida deles, perceber necessidades, dar mais atenção aos moradores e mostrar como a futura residência pode ser um lar. Demonstrar que a ocupação do espaço vai além de colocar(desenhar) móveis e elementos, ela é também é sobre o uso e a relação destes elementos com a futura ocupação(usuários) e com a casa.  Precisamos criar espaço para valorizar a experiência do usuário, afinal o usuário é o foco da arquitetura, e devemos criar um cenário onde seja natural o usuário transformar a residência em um lar.

Dentro dessa temática, estamos na finalização de uma casa projetada pela LP arquitetos. Buscamos fazer justamente o que Pallasmaa sugere em seu texto, conhecemos bem os clientes, um pouco mais das suas relações familiares, e projetamos um espaço que atendesse às necessidades e desejos deles dentro de um conceito de residência contemporânea.

Um ponto pertinente da discussão do projeto, desde o início, foi sobre a utilização de telhado com alta inclinação, um desejo dos clientes, e que não poderia ser ignorado. O projeto acabou tirando partido desta inclinação, apropriando-se da mesma para qualificação da espacialidade da residência. O resultado foi um projeto no qual o telhado, talvez o elemento com maior aparição no imaginário coletivo nacional quando o assunto é casa, ficasse aparente também dentro da residência, não sendo somente um fator estético externo. Assim, a sala de estar com pé-direito duplo, junto com o mezanino (estar íntimo), possuem o forro de madeira inclinado, criando um espaço que gera curiosidade e descoberta. No ambiente onde ficam os dormitórios das duas filhas, a inclinação do telhado foi utilizada para criar um outro mezanino dos dormitórios, uma sala que gera uma espécie de esconderijo das duas irmãs. Esse espaço, acessado somente pelos dormitórios delas, possui o pé direito inclinado e variável, configura-se como um ambiente compartilhado que as irmãs vão poder construir seus usos juntas.

Estamos ansiosos para ver a transformação do espaço, do fim da obra, da passagem de residência para Lar. Mas isso não quer dizer que não vamos tirar umas fotinhos e colocar no nosso site.

Vale Agradecer a Morena Renatinha, que sempre revisa meus textos.

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