E se a rua 24 horas (Alberto Pasqualini) fosse compartilhada?

Já falei sobre a transformação do centro e da Rua Alberto Pasqualini em um post anterior. Pois bem, mais de um ano passou e a vocação de Rua Alberto Pasqualini para uso vivo, com base em comércio de alimentos, só aumentou, mesmo com a Pandemia. Desde quando escrevi aquele texto, se agregaram à Rua a Sorveteria Santino, o Odara Café e a Padaria e lancheria OPA. Agora já são quase 10 estabelecimentos de alimentação em menos de 150 metros de rua! Todos esses estabelecimentos juntos, ali naquela quadra onde pedestres praticamente brigam com carros, me faz refletir: precisamos modificar aquele espaço! Com a necessidade de um distanciamento social mínimo, não faz sentido aquela quadra continuar com tanto espaço para o carro enquanto os cafés e lancherias, que muitas vezes ocupam lojas pequenas, não conseguem atender todos clientes com o distanciamento necessário somente dentro do espaço. Precisamos pensar na Rua 24 horas como uma rua compartilhada.

O que é uma rua compartilhada?

Vamos por partes, você já ouviu falar de ruas compartilhadas? É um conceito que vem crescendo em várias cidades que buscam uma melhor relação entre todos os usuários do espaço público. A ideia é que o espaço não tenha delimitação de área para calçada, rua ou ciclovia, e que o espaço seja totalmente compartilhado. Aí vem mais um detalhe, ela fica praticamente “nua” com relação à sinalização, possuindo somente o básico.  A ideia é que a sinalização acaba determinando demais o espaço, criando um conforto aos carros e pedestres, que pode levar ao descuido. Nos espaços compartilhados, como não existe preferencial, os usuários precisam negociar seu uso, e andam com muito mais cuidado.

Aqui você pode ver exemplos de ruas compartilhadas, no antes e depois.

Além disso, ruas compartilhadas tendem a ter um menor índice de acidentes. Veja como funciona no vídeo abaixo.

O conceito é contra-intuitivo, pois com menos sinalização, tem-se menos acidentes, exatamente por que todos precisam ter mais cuidados com esse tipo de rua. Carros não correm e precisam ter cuidado, e pedestres observam melhor por onde estão caminhando.

Com o distanciamento social na pandemia, muitas cidades tem dado opções para que  os cafés e restaurantes disponham mesas na área externa, principalmente na calçada. Mas algumas cidades foram além, e para não apertar a passagem dos pedestres, cederam espaços da rua (vagas de estacionamento) para os estabelecimentos. Isso permite mais usuários e consequentemente mais rentabilidade para os restaurantes, sem deixar a biossegurança de lado. A permanência dos restaurantes com movimento possibilita a longevidade dos mesmos, o que leva ao uso constante… e lembrando, quanto mais pessoas usufruírem do espaço público, maior a sensação de segurança em geral. Acredito que aqui em Santa Maria, a Rua Alberto Pasqualini poderia ser o piloto para uma aplicação deste tipo na cidade.

A Rua Alberto Pasqualini hoje tem um fluxo médio de veículos, onde a maioria está chegando ou saindo dos estacionamentos, porém ela é estreita e com alto fluxo de pedestres, que muitas vezes precisam ir para a rua para caminhar. A rua tem toda uma lateral que permite estacionamento, todos gratuitos, ou seja, todos subsidiados pela sociedade. Não acredito que todas aquelas vagas sejam necessárias! O ponto de táxi pode ser reduzido a no máximo 3 carros, as vagas da polícia civil podem ir para a Rua Coronel Niederauer, e a carga e descarga pode ser reduzida também. Não preciso nem dizer nada sobre as motos, que não pagam Estacionamento Rotativo (zona azul), que deveriam ficar só 30 minutos em cada vaga e ficam o dia todo estacionadas gratuitamente no espaço, metade daquele espaço estava suficiente. Além disso, já há um bom trecho da rua, que acompanha a lateral do Edifício Taperinha e o Clube Caixeiral, que é apenas peatonal. Ou seja, mesmo com toda a parede do Clube Caixeiral e a agência bancária embaixo do Taperinha serem fechadas para o espaço público, já há uma vocação da via destinada ao pedestre, pois o local ainda é utilizado por um amplo público.

Como poderia ficar a Rua Alberto Pasqualini

Independente das mudanças, facilmente metade do espaço de estacionamento poderia ser usado para alargar a calçada, e usar ela com espaço para mesas. E a velocidade dos carros e motos poderia ser reduzida com medidas já utilizadas em outros espaços compartilhados, criando uma mescla entre calçadão e rua. Um espaço com mais prioridade ao pedestre e menos aos veículos, que poderia ter bancos, bicicletários e espaço para vegetação e paisagismo. O fluxo de carro é importante, mas não prioritário naquela região.  Uma mudança desse tipo poderia ajudar a alavancar o comércio local e aumentar a vida no centro, dando ainda mais segurança para os usuários daquela quadra. 

As modificações poderiam começar na esquina, indicando um novo tratamento para a quadra e induzindo a redução de velocidade

Outro espaço que poderia ser melhor aproveitado na Rua é o Terreno do “Garajão”, que até onde sei pertence à UFSM. O terreno se estende desde a Rua Astrogildo de Azevedo até a Rua Alberto Pasqualini, onde tem um muro de mais de dois metros de altura, e está assim desde que eu me conheço por gente. Confesso que não conheço os trâmites para a concessão do espaço, mas no mínimo uma faixa de 3 ou 4 metros do terreno poderia ser cedido ao município. Ali existiria a possibilidade de criar uma praça longitudinal com mesas, bancos e até algum pequeno espaço comercial, e tudo isso sem muito investimento… 

Área desocupada a anos poderia ser melhor aproveitada para o centro sem muito investimento.
A gratuidade de estacionamento de motos é um incentivo financeiro para um bem privado, e utilizando um espaço público. Entregar essas área aos pedestres e restaurantes seria mais proveitoso.

Já estávamos em uma crise, e a pandemia piorou tudo, o Município não tem recurso, e o comércio está com a carteira apertada, e aqui acho que entra a ideia de fazer medidas de urbanismo tático, onde as mudanças são simples e o espaço é testado antes de ser investido um valor muito grande.  

Acho que podemos aproveitar o pouco fluxo de carro, a necessidade de usos ao ar livre e testar soluções que podem vir a ser permanentes na nossa cidade! 

Escrito por

Gaúcho, Santa Mariense, Arquiteto e Urbanista que um dia foi anarquista.

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