Mudança de usos no Centro da Santa Maria

Indiscutivelmente a segurança pública passa pela rua, pela calçada e pela vida urbana. Jane Jacobs era uma, entre tantos, que observava e relacionava a conformação do espaço e o uso com segurança e conforto para moradores e transeuntes das localidades. Um dos principais fatores atribuídos por ela era o mix de usos, a sensação de segurança e de qualidade de vida urbana de uma região passa pela mescla de usos residenciais, comerciais e de serviços.

Junto com a minha vivência das cidades e a leitura de textos de outros autores, vi que concordo com ela. Acho fundamental incentivar imóveis comerciais ou de serviço, de diferentes naturezas, na beira da calçada. Claro que tudo isso é um equilíbrio fino, pois para se tornarem viáveis, estes estabelecimentos precisam de fluxo de clientes, frequentadores, dentro do público adequado aos seus produtos. Ou seja, ainda vai depender do tipo de negócio, tipo de cliente e tipo da localidade. Uma padaria precisa de moradores perto e visibilidade para clientes que não moram na região, mas circulam por ela. Sua receita pode vir dos dois grupos, ou somente de um grupo.  Se ela tiver um fácil estacionamento em um local com alto fluxo de veículos, possivelmente terá clientes, mas pode não gerar qualificação de espaço urbano. Agora se a padaria também estiver numa área de alta densidade habitacional, só os moradores que moram nos arredores ou circulam a pé pela região, já poderão configurar-se como público suficiente, e o comércio acaba também qualificando de alguma maneira seu entorno. Esse tipo de comércio atrai um fluxo de pessoas constante, trazendo movimento para a via ou localidade em diferentes horários, estabelecendo conexões entre usuário e entre estes e a cidade.

O caso da Floriano

Percebi na prática um pouco dessa experiência aqui no centro de Santa Maria. Nosso escritório, LP arquitetos, fica na Rua Floriano Peixoto, acima da livraria Athena, bem no centro da cidade. Essa região tem experimentado algumas mudanças de usos que me fizeram sentir como isso pode mudar o conforto do pedestre/transeunte que circula na região. A vizinhança, que fica a menos de uma quadra do calçadão, tem uma vocação comercial no térreo dos edifícios (alguns edifícios com torre de uso residencial e outros com uso comercial e de serviços, como o nosso). O térreo dessa quadra sempre foi povoado de lojas, principalmente de calçados e roupas, e por alguma razão, que não sei definir qual, o uso foi mudando com o passar do tempo. Uma famosa marca de calçado (Frizzo) fechou, e com o tempo o espaço se transformou em um minimercado, uma segunda loja fechou e o espaço virou uma sorveteria, um pouco mais adiante, o espaço de uma pequena loja virou uma lancheira especializada em açaí. Pode parecer pouco, mas isso mudou bastante o uso e apropriação da quadra. Agora os bancos que não eram tão usados,  estão quase sempre com pessoas tomando sorvete e conversando, e o movimento na frente do açaí é constante (inclusive com pequenas mesas na calçada). O mini-mercado incrementou ainda mais o local, pois funciona até às 21, e isso fez uma diferença e tanto! Todas as lojas de comércio fecham às 18:30 ou no máximo às 19. Quando eu saía do escritório depois desse horário a rua já estava quase deserta, sendo o único movimento próximo ao pequeno espaço de lanche árabe, que serve suas refeições na calçada mesmo, em cadeiras de plástico. Talvez o sucesso dele, inclusive, tenha sido um dos motivadores para os outros estabelecimentos se instalarem nesta mesma quadra, e que bom, só temos a agradecer.

Alberto Pasqualine (24horas)

Interessante é perceber como a cidade é pouco previsível. Toda essa mudança nessa quadra, mas a quadra logo ao lado ainda carece de melhorias. Talvez a via mais escura do centro, a antiga Rua Vinte e Quatro Horas, que de dia é um caos em função do movimento de carros na rua sem saída, de noite é praticamente deserta. Pouco tempo atrás inaugurou uma franquia de venda de calzones, no começo da via, com horário de funcionamento até às 21, o que trouxe um pouco de vida para aquele trecho. Percebi, ao sair do escritório à noite, que a rua ficou mais clara e com pessoas, e a sensação de segurança mudou. Parecia o princípio de uma melhoria. Hoje já temos mais um estabelecimento de lanche rápido do outro lado da rua, fazendo com que a região tenha uma mescla de espaços de refeição com lojas de roupas e calçados, permitindo ao usuário mais opções de consumo. No entanto, ao mesmo tempo, outras lojas fecharam e os térreos esvaziaram-se. Para completar, a mesma via possui ainda um grande terreno vazio, murado, e uma sequência de garagens e estacionamentos, o que gera uma sensação de insegurança bastante grande no trecho em direção à Rua do Acampamento. Ou seja, a Alberto Pasqualini possui uma perspectiva de gradativa requalificação, principalmente na porção próxima à Rua Floriano Peixoto, mas parece que falta que este processo contamine o restante da quadra (salvo no fim da rua, o bar Cristal)garantindo maior circulação de pessoas ao longo da via como um todo, o que certamente acarretaria em melhorias da vida urbana da mesma, em todos os turnos.

Gosto de ver a cidade mudando, os usos trocando, ver de perto as mudanças que os livros falam. A cidade muda como um ser vivo, e isso impacta em todos nós. Na minha opinião, devemos continuar a observar e, se possível, incentivar essas mudanças, esses mix de usos e o comércio de rua. Devemos criar atrativos para a população tomar conta da cidade.

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