Resenha – Livro Cidade Caminhável

“Apesar de nunca ter sido declarada uma Guerra, muitas cidade americanas parecem ter sido feitas e refeitas com a incumbência de derrotar pedestres”. Essa é uma das primeiras frases do livro Cidade Caminhável, do americano Jeff Speck. O livro aborda o tema crescente da caminhabilidade nas cidades americanas, e que facilmente podemos relacionar com a nossa realidade brasileira.  O interessante do livro é que ele constrói, com argumentos técnicos, que melhorar a cidade buscando meios alternativos de transporte não só favorece o bem estar das pessoas, como traz resultados econômicos positivos.  

Um dos grandes exemplos americanos nesse caso é a cidade de Portland, que vem sistematicamente investindo em transporte coletivo, caminhabilidade e ciclovias. A cidade tem hoje, segundo estudos apresentados, 20% menos trânsito do que em seu ápice, em 1996, e isso hoje representa uma economia geral de cerca de 1 bilhão de dólares ao ano na cidade (somando gastos públicos e economia dos usuários). É claro que o recurso não se perde, é reinvestido na cidade, que  tem um alto índice per capta de livrarias, bares e restaurantes. É menos dinheiro para o petróleo e mais dinheiro para o comércio local.  Além disso o livro aborda como caminhar faz bem para a saúde física e mental de quem o faz, e como a interação faz bem para a sociedade. Um exemplo é a abordagem do ex prefeito de Bogotá,  Enrique Penãlera que diz: “Deus nos fez animais que caminham, pedestres. Como um peixe precisa nadar, um pássaro voar e um cervo correr, nós precisamos caminhar, não para sobrevivermos, mas para sermos felizes”

Uma parte central do livro é mostrar como nosso planejamento urbano baseado em carro é equivocado. Existe uma crítica grande aos engenheiros de tráfegos, que na verdade fazem bem o seu papel, tentam resolver congestionamentos e dar melhor fluxo às ruas, porém essas modificações muitas vezes trazem mais prejuízo do que benefício para a cidade como um todo. 

Ele apresenta o conceito que já existe há alguns anos, o de demanda induzida e demanda reduzida:

“Demanda induzida é o nome que se dá ao que ocorre quando o aumento da disponibilidade de ruas reduz o custo do tempo de dirigir, fazendo com que as pessoas dirijam mais e impedindo quaisquer redução de congestionamento” Dessa maneira, obras viárias acabam por gerar mais trânsito e em curtos períodos de tempo a situação está igual ou pior em comparação a antes do investimento de ampliação.  O fato é, nenhuma cidade do mundo resolveu o trânsito, a mobilidade, construindo mais pistas para carros.

Além disso, precisamos parar de buscar fluxo, pois isso transforma toda a cidade em uma região para cruzar e não em uma região para se chegar. Estudos apresentados no livro relacionam troca de mão dupla para única com redução de arrecadação no comércio da via onde esta mudança ocorre, bem como no comércio das vias transversais. O contrário da Demanda Induzida é a Demanda Reduzida, na qual a remoção de vias é capaz de diminuir o trânsito e congestionamento do entorno, ou seja, as pessoas acham outras maneiras de ir até o local. O caso mais clássico é o da capital da Coréia do Sul, Seul, que removeu uma pista expressa onde cruzavam 168 mil carros por dia e trouxe à vida um rio que estava encoberto por ela, substituindo a pista elevada por um boulevard à beira do rio. Hoje, a região tem temperaturas mais agradáveis (diminuição da ilha de calor), espaços para caminhar e mobilidade alternativa, e por consequência os imóveis do entorno se valorizaram cerca de 300%. 

O livro ainda conta muito das experiências do autor, desde a realização de projetos em cidades que ele não conhecia, até sua iniciação em andar de bicicleta por Washington DC, onde mora atualmente. Em outro ponto, próximo ao fim do livro, é abordado sobre como podemos ter uma cidade mais caminhável e cita que o carro continua sendo importante, até mesmo para favorecer a caminhabilidade. Alerta que a completa proibição de carro é tão danoso para o comércio como o excesso de carros. Existe uma relação entre estacionamento e caminhabilidade, indicando que o veículo estacionado afasta o trânsito do pedestre e cria conforto para a caminhada.  Precisamos ter veículos, bicicletas e pedestres circulando de maneira confortável e na velocidade certa na nossa cidade.  As bicicletas não devem tirar as vagas de estacionamento e sim o espaço dos carros circulando.

A conclusão é que investir em meios de transporte coletivo,  ciclovias e em mobilidade a pé é fundamental para a sobrevivência das cidades, e cada investimento feito em trânsito que não leva em conta isso é um retrocesso! 

Jeff Speck é graduado em artes pela Williams College, mestrado em história da arquitetura Renascentista pela Universidade de Siracusa e em arquitetura pela Universidade de Harvard.  Dirige o Speck and Associates, onde realiza consultoria e projetos urbanos para todo o mundo.

Escrito por

Gaúcho, Santa Mariense, Arquiteto e Urbanista que um dia foi anarquista.

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