Dica de Leitura – SP nas alturas

Buscando entender um pouco mais da arquitetura da maior cidade brasileira, São Paulo, tenho buscado, além de viagens e visitas in loco, livros sobre os prédios e a arquitetura paulista. O principal assunto de meu interesse é sobre edificações em altura, área que trabalho e gerencio dentro da LP arquitetos.

Um dos livros mais legais que li sobre São Paulo é o São Paulo nas alturas, do Raul Juste Lores. Apesar de não ser arquiteto, o autor é apaixonado por arquitetura e possui um grande currículo de vivências e experimentações urbanas no Brasil e fora dele. Raul foi correspondente da Folha em Washington, Nova York e Pequim, e correspondente da Veja em Buenos Aires. Além disso foi editor de Mercado na Folha, apresentou o telejornal “Jornal da Cultura”, na TV Cultura, em 2007 e hoje é editor chefe da Veja São Paulo, a “Vejinha”.

O livro conta como foi a explosão da arquitetura vertical paulista, começando na década de 30, 40 até o começo do século XXI. O que eu acho mais legal é que o livro constrói a relação da arquitetura com a sociedade e a economia. A maior parte do livro retrata décadas de 40, 50 e 60, quando São Paulo cresceu assombrosamente, o que acabou criando um mercado promissor para moradias em altura. E isso ocorreu em frentes distintas, passando por Higienópolis, Centro, República, Avenida Paulista e outras, e, curiosamente, cada área com um estilo, um grupo de profissionais e em uma época específica.

O livro, que começa relatando a modernidade e como ela chegou em São Paulo, traz histórias dos investidores, dos construtores e dos arquitetos, impossível não se apaixonar por essa época e essa arquitetura. Alguns pontos que considero mais interessantes do Livro:

Niemeyer em São Paulo

Apesar do arquiteto estar presente no nosso imaginário em edificações públicas, principalmente em Brasília, o jovem arquiteto fora “seduzido” pelo mercado e fez não só o COPAN, mas vários outros projetos de edifícios de apartamentos em São Paulo. Entre eles estão o Califórnia, o Eifel e o Montreal. O arquiteto mesmo não gostava de lembrar dessa fase, que tinha trabalhado para o mercado e não para o país, o que, no meu ponto de vista, pode ser mais complexo e mais legal.

Arquitetos Estrangeiros 

Com a guerra e a austeridade do pós guerra na Europa, muitas mentes brilhantes saíram de lá, para lugares mais promissores, que estavam em expansão, como o Brasil. São Paulo recebeu muitos imigrantes, que aproveitaram o bom momento econômico da cidade. Além de artistas, escritores e outros notáveis, vários arquitetos se estabeleceram em São Paulo, produzindo inúmeras obras de qualidade para o mercado imobiliário. Entre eles podemos citar os poloneses Luciano Korngold, Alfred Duntuch e Victor Reif, o alemão Franz Heep, que ganhou o concurso para projetar o edifício Itália, os italianos Maria Bardelli e Ermanno Sifrei, que tem no seu portfólio a charmosa Galeria do Rock,  entre vários outros. Poderia continuar a citar aqui, mas vale você ler no livro a história de todos.

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Edifíio Lausanne – Franz Heep

Artacho Jurado

Artacho Jurado era um nome que eu, em toda minha faculdade, não havia escutado, talvez por ele não ser arquiteto de formação, ou de seu “estilo” ir contra os dogmas modernos da época, ou simplesmente porque não tinha ninguém valorizando o trabalho dele naquele momento. Existe um excelente material no livro dedicado a esse incorporador e “arquiteto”, que tinha gostos peculiares e ergueu vários edifícios que hoje são ícones em São Paulo, como o Bretagne, o Hortênsias e o Viadutos. Vale a pena conhecer um pouco da peculiar história deste empreendedor. Curiosamente existe uma série documental no youtube sobre ele. 

Galerias comerciais e uso misto

São Paulo vivia a conurbação urbana, edifícios eram feitos em áreas densas, e apesar da modernidade arquitetônica ser refletida nas edificações, o conceito urbano não era o mesmo que estava sendo aplicado em Brasília, uma vez que São Paulo já estava consolidada. Os edifícios eram próximos, eventualmente colados nas divisas,  com áreas comerciais no térreo, enfim, um incentivo a caminhar pouco e viver o bairro sem carro. Em um trecho do livro, um ilustre morador do Copan, Paulo Mendes da Rocha, conta como era descer de roupão e comprar o que era necessário na própria galeria que ocupa os primeiros pavimentos do complexo. Além disso, foram executados na época edifícios galerias, que ligam duas ruas e possuem vários pavimentos. O mais famoso hoje é a Galeria do Rock, que com suas varandas curvas deixam a luz entrar em quase todos os pavimentos, além de criar conexão visual entre os mesmo, é uma aula de arquitetura.

Condomínios a preço de custo

Muitos destes edifícios foram construídos em um sistema inovador na época, o Condomínio a Preço de Custo, algo do qual hoje já participei e um modelo de investimento para o qual o escritório elabora projetos. É interessante ver como surgiu a legislação e o método de incorporação, o livro ainda mostra como o sistema entrou em colapso quando a inflação chegou, e uma legislação impedia os construtores a corrigirem os custos acima de 12% ao ano. Imagine, materiais subindo em até 40% ao ano, e o construtor podendo repassar somente 12%. Assim, todos foram aos poucos quebrando e deixando obras pela metade, que eram finalizadas pelos compradores.

A arquitetura é reflexo da sua época econômica.

Não lembro em qual livro li sobre isso, mas é impressionante como a arquitetura é reflexo da economia. São Paulo viveu uma época de explosão populacional e econômica nessas décadas, o que refletiu em projetos de maior qualidade, e possivelmente maior custo, tanto para construir quanto para comprar. Todo o Brasil cresceu nessa época, mas São Paulo aumentava muito sua população ano a ano, e ao mesmo tempo, é impressionante como a inflação e a recessão econômica dos anos 70 e 80 deixaram marcas na arquitetura também,  com menor investimento em arquitetura e projetos bem mais simples.  

Como enxergar isso em Santa Maria

Acho interessante buscar paralelos e construir esse raciocínio em Santa Maria.  Até pouco tempo atrás, os edifícios mais altos e icônicos da paisagem urbana do centro eram os que foram construídos em épocas similares ao boom de São Paulo (décadas de 50, 60 e 70). Entre ele temos Taperinha, Centenário, Edifício Pampa, Edifício Augusto, entre outros, que possuem características da arquitetura moderna e foram grandes investimentos. Ao mesmo tempo, nas décadas de estagnação econômica, reinou edificações de 4 pavimentos por toda a cidade, além, é claro, dos famosos BNHs. Não temos nenhum estudo aprofundado sobre isso, mas acho interessante traçar o paralelo, de como esses grupos de edifícios, podem representar um período econômica e social da cidade.

Assim, em meio à quarentena, fica a dica de leitura e posterior reflexão. O livro de Raul Just Lores (acompanhe ele no instagram, muita arquitetura também)  é formidável para arquitetos, engenheiros, incorporadores e curiosos sobre mercado imobiliário e sobre São Paulo.

Escrito por

Gaúcho, Santa Mariense, Arquiteto e Urbanista que um dia foi anarquista.

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