Por que prefiro o modernismo

Há uma discussão entre arquitetos – e até com leigos – sobre as diferentes posturas adotadas por profissionais da área em relação a linguagem arquitetônica. Há os que preferem ou referenciam bastante o Movimento Moderno, até buscando um resgate; enquanto há outros arquitetos que preferencialmente adotam uma linguagem mais desligada a essa tendência, referenciando arquitetos de discurso mais orgânico. Posso dizer que sou do primeiro time, gosto de uma arquitetura de linguagem clara, leve e responsável, sou apaixonado por alguns preceitos modernistas.

Em Julho/agosto de 2008 viajei para alguns países da Europa, dar uma passeada, pesquisar referências para meu Trabalho Final de Graduação, enfim, um turista meio mochileiro. Dentro do cronograma da viagem ocorreu de eu ir de Berlim para Praga. Ali encontrei uns amigos, dentre eles Ronald, um colega arquiteto que já conhecia a cidade de Praga.

Logo no primeiro dia de passeio, como o hábito entre viajantes arquitetos, fomos ver algumas referências da cidade, e logo chegamos na Dancing House, ou também conhecida como “Fred e Ginger”, um edifício de escritórios projetado por Frank Gehry em cooperação com Vlado Milunic. A edificação trabalha com dois volumes, um representando um homem, com o peito estufado que abraça e puxa para junto de si o outro volume, que lembra uma mulher, com a leveza do vidro e a organicidade das formas curvas. Apesar de possuir um ar vanguardista e diferenciado, a edificação não chega a entrar em conflito com o entorno, ela se sobressai a todo ele, porém sem um rompimento bruto. Atravessamos a rua, passamos embaixo do avanço da edificação na calçada, e logo comecei a comparar o que acabava de ver com uma edificação em específico que havia visitado em Berlim, um edifício residencial de Oscar Niemeyer.

Dancing House – Fonte: o Autor
Dancing House – Fonte: o Autor

 O Edifício residencial fica no bairro de Hansaviertel, pertinho do Tiergarten, projetado por Niemeyer para o Interbau (exibição de arquitetura ocorrida em 1957 que visava a modernização da arquitetura na Alemanha). Tenho ressalvas e não sou um fã das obras contemporâneas do Velhinho, porém acredito que nessa fase ele ainda acertava. A edificação residencial é um prisma de sete pavimentos elevado a um pavimento do chão, com aberturas grandes e uma modulação evidente. O quinto andar concentra a área comum da edificação, que pode ser acessada por fora, possibilitando que a comunidade em geral o acessasse em dias de evento, sem interferir na rotina de moradores. O ar modernista é evidenciado pelo sítio, próximo a uma grande avenida de Berlim e solta em um terreno o qual não apresenta limites identificáveis, arborizado e de total circulação do público.

Edificação Residencial de Niemeyer – Fonte: o autor
Edificação Residencial de Niemeyer – Fonte: o autor

 O que me fez pensar nessa relação foi o que logo chama a atenção na edificação de Niemeyer. Existem  somente duas linhas de pilares, sendo estes em V, que diminuem o número de pontos de contato com o solo, além de liberar quase todo o térreo no miolo da edificação. Esses pilares ainda tem uma continuidade na fachada, uma clara demonstração da modulação usada, uma continuidade harmônica que começa no solo e acaba determinando a fachada e o próprio volume da edificação.

Edificação Residencial de Niemeyer – Fonte: o autor
Edificação Residencial de Niemeyer – Fonte: o autor

Esse foi o ponto onde a minha comparação começou. Entendo que a presença de edificações que desafiem conceitos e que marquem pontos e espaços na cidade é necessária, mas me sinto melhor e mais confortável quando vejo uma edificação como a de Niemeyer. Ela é lógica e racional, poderiam existir muitas delas que o conjunto não ficaria cansativo nem pesado. Gosto da humildade com que ela se relaciona com o meio. Confesso também que ao começar a escrever esse pequeno relato não tinha carinho pela edificação de Frank Ghery, porém depois de uma pesquisa rápida entendi um pouco mais sobre ela e seu motivo. É um edifício que mirava um marco cultural, no local onde ela está existia uma edificação que foi destruída na guerra, era um local com história.

Porém o enfoque inicial do raciocínio é como as edificações se relacionam com o solo; como uma é limpa, racional e libera o solo, entendendo que o uso é humano, deixando mais espaço para essa finalidade, enquanto a outra acaba trancando o acesso e circulações de pedestres, pesando e obstruindo em partes a passagem da rua. Obviamente a edificação de Frank Gehry está preocupada com outros pontos e tem outras diretrizes, e é isso que me importuna. Muitas vezes o que me incomoda é a postura de ser notada, parecendo que a edificação e seus volumes, desenho e, consequentemente pilares, são mais importante do que quem usa a própria edificação e circula por baixo dela. Isso é para mim muito do que alguns arquitetos acreditam, que a arquitetura precisa ser mais que as pessoas e que o seu uso, impressionar pela grandeza ou extravagancia, parecendo prevalecer a impressão em detrimento da utilização.

Pilares do Dancing House – Fonte: o autor
Pilares e térreo da edificação Residencial de Niemeyer – Fonte: o autor

Continuo preferindo a edificação do Niemeyer, mas entendo que precisamos de edificações como a Dancing House, precisamos desses marcos, que mexem com o imaginário, que muitas vezes dão identidade às localidades. Porém meus princípios funcionais e racionais, a minha forma de ver e raciocinar a arquitetura me prendem a muitas ideias modernistas e me impendem de defender e abraçar a causa.

Dancing House – Fonte: o autor

Link do Google Maps para as edificações.

http://g.co/maps/e47kp

Mais informações sobre a edificação em Praga:

http://www.prague.fm/pt-pt/10669/dancing-house/

http://www.pragueexperience.com/places.asp?PlaceID=651

Uma imagem 360° do topo da edificação – http://www.360cities.net/image/the-dancing-house#354.25,26.84,110.0

Mais informações sobre a edificação em Berlin.

http://www.galinsky.com/buildings/niemeyerinterbau/

http://kakiafonso.blogspot.com.br/2010/11/interbau-57-x-niemeyer.html

Artigo sobre a Interbau – http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.129/3746

Escrito por

Gaúcho, Santa Mariense, Arquiteto e Urbanista que um dia foi anarquista.

Um comentário em “Por que prefiro o modernismo

  1. Grande Guilherme !
    Concordo com seu pensamento, “Continuo preferindo a edificação do Niemeyer, mas entendo que precisamos de edificações como a Dancing House, precisamos desses marcos, que mexem com o imaginário, que muitas vezes dão identidade às localidades. Porém meus princípios funcionais e racionais, a minha forma de ver e raciocinar a arquitetura me prendem a muitas ideias modernistas e me impendem de defender e abraçar a causa.” Muito bom o seu trabalho/ponto de vista. Gostei muito dos pilares em em V desenvolvidos pelo Niemeyer, ótima ideia.
    Parabéns, sucesso para toda a equipe.
    Cláudio Roat

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