Mobilidade Urbana: Por que Mais Fluxo Não é a Resposta

Esses dias tive uma discussão com minha esposa sobre o trânsito. Ela comentou, com razão, que a duplicação da faixa velha deu mais fluxo para os veículos que chegam no centro, mas criou um ponto de congestionamento onde há a primeira parada obrigatória para quem chega de Camobi. No fim, tranca o trânsito desde o Colégio ICM até o trevo do Fórum. Ela comentava que seria importante alguma intervenção viária ali, opinião aliás que mais de outros já compartilharam comigo, mas eu discordo.

Não discordo que precisa ser feita uma obra no trevo, discordo que vai resolver. Isso porque, ao darmos mais fluxo à faixa velha, trancamos no trevo. Na sequência, se proibiu de estacionar na R. Euclides, para dar mais fluxo e outra possibilidade de acesso ao centro, o que acabou empurrando o fluxo para mais adiante, e agora está começando a trancar em outros locais, em outras esquinas. Isso é um jogo de empurra sem fim. Mas vamos lá, digamos que hipoteticamente resolvamos o trânsito no trevo do Fórum. Com todo mundo passando direto por ali, mais pessoas vão optar por essa rota, afinal tá fluindo, e logo mais, ou ali vai estar trancado novamente ou o fluxo rápido vai empurrar o problema para o próximo local que ainda “não está resolvido”. 

Querer resolver o trânsito e a mobilidade dando mais fluxo para ele é um caminho sem fim, pois NUNCA se resolveu a mobilidade dando mais fluxo e espaço aos carros. Só se vai consumir recursos públicos, criar incentivo ao carro, mais acidentes e fazer com que se caminhe menos, pois fica cada vez mais difícil atravessar uma via. 

Agora vejo movimentações para trancar o eixo central da Av. Fernando Ferrari. Acho isso interessante do ponto de vista de evitar acidentes, mas imagino que deva ser pelo fluxo, pela “rapidez”. Dá para ver como isso se resolveu na Pres. Vargas e na Medianeira, que ganharam mais fluxo, mas hoje já se encontram congestionadas novamente. A demanda induzida não falha, resolvemos hoje, criamos a demanda, e amanhã congestiona novamente. E no fim continuamos com o mesmo tempo de deslocamento, mas piorando comércio local, travessia de pedestres, circulação de bicicletas, tudo em nome do fluxo de carros.

Precisamos de um pensamento mais amplo, de conexão urbana entre pessoas, de priorizar pedestres, ter mais arborização, mobilidades conectadas, ter bicicletários ligados a estações de ônibus, mais ciclovias ou corredores de ônibus que permitam que outros meios tenham um pouco mais de prioridade em relação ao carro.  Precisamos de uma análise multidisciplinar, mais global. Se deixarmos para quem é especialista em fluxo de carro, o foco vai ser o fluxo de carro, independente do impacto na vida urbana. Aos poucos, vamos necessitando de mais obras e consumindo mais recursos, empurrando os problemas para a próxima esquina, sem parar.

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Escrito por

Gaúcho, Santa Mariense, Arquiteto e Urbanista que um dia foi anarquista.

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