O Tédio

No começo do ano, em janeiro, li uma reportagem na Revista Piauí, fiz umas anotações e nessa semana de aniversário resolvi retomar a reflexão. O texto da reportagem na verdade é um discurso de formatura de 1989 para uma turma de mais de mil alunos que se formava em New Hampshire, e é uma complexa reflexão sobre o tédio.

O discurso, feito pelo ganhador do Nobel da literatura Joseph Brodsky, começa explicando aos formandos que a vida, daqui para frente, será cheia de tédio, argumentando que não há como escapar e nem tem como a faculdade te preparar para isso. O poeta Russo (que viveu nos Estados Unidos) refletiu que o tédio é uma consequência da repetição, e desta não temos como escapar, portanto o tédio é inevitável. Concordo, e comecei a enumerar e pensar em repetições, como café da manhã, almoços, horas de entrada e saída do serviço, tudo igual. E mesmo que vida seja cheia de aventuras, de saltos de paraquedas, trilhas e escaladas, em algum momento a adrenalina será repetida tantas vezes que irá aos poucos tangenciar e possivelmente atingir o tédio.

Não sei bem o que me cativou no texto, talvez seja minha pequena angústia e vontade de  refletir sobre tudo e sobre o que fiz desde o meu último aniversário (dia 18 de outubro de 2016), ou talvez por ver estagiários se formando com muita vontade. No fim, temos poucas alternativas, acredito que o que a maioria faz é o mais fácil, ignorar o tédio, encher sua vida com atividades, televisão, redes sociais e objetivos (emagrecer, correr uma maratona, comprar uma carro, uma casa…), assim construímos um cenário de intensa ocupação dentro da nossa cabeça, para não notar o tédio. Mas  em alguns momentos ele vai aparecer! O tédio estará presente no horário de descanso, em horas assistindo tv, em curtidas do facebook, e nos history do instagram (bolinha segundo alguns).

Joseph, em seu discurso, mostra duas alternativas. Uma é a paixão, com paixão tuas energia vão mais longe. Não estamos falando de paixão carnal, mas sim a paixão pelo fazer, pela atividade, pela vida. Mas qualquer adulto sabe que é impossível manter paixão 100% do tempo, seria uma luta constante, além disso, nem todos podemos fazer só o que nos apaixona, na verdade, poucos são os privilegiados que tem essa oportunidade.  A segunda solução, que me parece mais plausível e madura, e ele concorda (ou melhor, eu que concordo com ele), é abraçar o tédio, nos momentos que ele aparecer, deixe ele entrar. A ideia é curtir e aprender a conviver com um pouco de monotonia. Estou, aos poucos, tentando me adaptar a essa realidade.

Que fique claro que minha vida não é cheia de tédio. Exercícios físicos, minha esposa, amigos, afilhados , músicas, jantas e churrascos realmente espantam o tédio. Mas ele tem seus momentos, e é focado nestes momentos que estou estudando como lidar. Observo que é bom ficar no silêncio, escrever esse texto, sentar na sacada, olhar a vista, olhar o céu, perceber o tédio que você gosta. Percebo que adoro o amanhecer, gosto de ficar parado em bancos olhando para o verde, para a vida urbana, o movimento no centro, por alguns minutos deixo o tédio tomar conta. É muito difícil, fico aflito, sou angustiado que a vida passa e eu não faço nada, mas talvez aceitando um pouco mais o tédio posso relaxar. É tão bom quando depois de um tempo no tédio consigo relaxar e soltar o ar, parece que fico mais leve, mais relaxado. Mas também só consigo fazer isso por 15 ou 25 minutos, pois a cabeça nesse relaxamento se organiza e se enche de ideias, e daí preciso me movimentar novamente.

Aqui o link para a reportagem completa, acho que é só para assinante, mas qualquer coisa eu mando em pdf o texto.

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2 comentários em “O Tédio

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