Brincar no espaço público

Estive em Porto Alegre num final de semana, era aniversário de um tio e acabei me hospedando na casa de uma tia, no centro da cidade. Coincidentemente, finalizei a leitura de Movimento: como recuperar nossas ruas e transformar nossas vidas, um livro que me acompanhava há algumas semanas e que, sem querer, se entrelaçou com o que vivi por lá. Uma grande amiga também mora no centro, e resolvemos, eu, minha esposa e nosso filho de dois anos, fazer o trajeto até a casa dela a pé. Saímos caminhando pela Av. Borges e decidimos ir por cima, pela escadaria, mesmo sabendo que isso implicava em subir e descer.

Você sabe do desafio de caminhar com uma criança. A gente controla ela, e eu ia dizendo em tom firme, quase automático: “Fica do lado de dentro”, “Sempre de mão”, “Cuidado com a rua”. E é justamente esse “modo automático” que a cidade nos impõe. A cada calçada estreita, a cada carro que passa veloz, a gente aprende — e ensina — que a cidade não é lugar seguro para brincar, explorar ou caminhar com tranquilidade.

Mas ao subir no viaduto, uma estrutura destinada apenas aos pedestres, nosso filho se soltou. Correu. E eu, no reflexo, corri atrás. Não por perigo, mas por hábito. Porque o impulso de controlar o comportamento de uma criança no espaço urbano é constante. Acontece que ali, naquele pedaço da cidade sem carros, não havia risco. Ele podia correr.

O livro que eu acabara de ler falava sobre isso: como, aos poucos, fomos gradualmente recuando, cedendo espaço ao carro e regrando o pedestre. Regrando tanto que esquecemos que já jogamos bola na rua. Que já foi comum usar a calçada para conversar, brincar, estender cadeiras. Que as crianças, até bem pouco tempo atrás, podiam sair de casa sem estarem sempre sob supervisão e controle. Hoje, dois metros além do portão, já é tudo fluxo, de carro, de pressa, de eficiência. É curioso como construímos cidades cada vez mais otimizadas para chegar rápido, fazer balão de retorno e manter o fluxo rodando. Parece que estamos querendo sempre chegar.

Nesse momento, a escadaria me fez pensar que talvez esse seja um papel da arquitetura e do urbanismo hoje: devolver o que já foi nosso — a possibilidade de circular com liberdade, de brincar, de parar, de se encontrar na cidade. Porque nem toda caminhada precisa ser por necessidade. Algumas podem — e devem — ser pelo prazer de caminhar.

Se quisermos cidades mais humanas, precisamos começar por dar mais espaço ao lúdico, ao imprevisível, ao gesto espontâneo de uma criança correndo sem medo. Pode parecer pouco, mas talvez seja exatamente aí que a cidade comece a se transformar.

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Escrito por

Gaúcho, Santa Mariense, Arquiteto e Urbanista que um dia foi anarquista.

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